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O LIVRO CONTINUA FIRME
Os mais alarmistas acreditam que a venda do livro em papel será ultrapassada pela da versão eletrônica (e-book) em 2018, da mesma forma que o jornal impresso também tem seus dias contados graças aos avanços tecnológicos. Arautos do apocalipse, no entanto, não impressionam o escritor e jornalista Zuenir Ventura. “Ouço essa história desde que comecei minha carreira, em 1958, especialmente quando surge uma nova tecnologia. Já no início da história do conhecimento humano, o surgimento da escrita era apontado como uma ameaça à memória, que se extinguiria pela falta de uso uma vez que tudo passaria a ser documentado.”

Contrário a antagonismos, Zuenir Ventura, autor de clássicos como 1968 – O Ano que Não Terminou (Planeta), aposta no ajuste e não na extinção desses meios ameaçados. “O jornal sobreviveu ao rádio, à televisão e, agora, resistirá diante da internet. O que acredito ser o caminho da sobrevivência é a formulação de sua pauta, ou seja, o texto do jornal impresso deverá ser cada vez mais interpretativo e não apenas informativo.”

Segundo ele, o turbilhão de notícias disponíveis a cada segundo na rede mundial mais confunde que informa as pessoas, especialmente os jovens, que muitas vezes ainda não coletaram conhecimento necessário para filtrar os fatos e dali desprender a essência. “Percebo uma grande diferença entre a geração atual e a minha”, observa Zuenir, que completou 79 anos em junho.

“Enquanto meus pares lutavam por uma ideologia, os jovens de hoje não têm mais certeza. O que comprova que o excesso de informação provoca ruídos e, às vezes, até indigestão.” Zuenir ficou satisfeito com as declarações do presidente da Associação Mundial de Jornais, Timothy Balding. Durante o 62º Congresso da entidade, na Índia, ele se declarou na contramão das previsões mais pessimistas, ao afirmar que a indústria de jornais está longe do apocalipse. “É normal acontecer alguma oscilação no número das vendas, mas nada que possa abalar as estruturas”, comenta Zuenir.

O livro também vive ameaçado, mas continua firme. O incremento de aparelhos digitais de leitura, conhecidos por e-books, é fato: segundo uma empresa de pesquisas (Forrester), cerca de 3 milhões de leitores digitais serão vendidos nos Estados Unidos até o final do ano, contra uma previsão inicial de um milhão, – um aumento favorecido por preços mais baixos, variação no conteúdo e melhor distribuição.

Mas os puristas apontam uma qualidade da obra em papel que a ferramenta digital ainda não consegue oferecer: o prazer olfativo de se folhear um livro. “Isso ainda é insubstituível”, comenta Zuenir que, diante das incertezas que sempre marcam o surgimento de novas tecnologias, aposta na manutenção dos objetos mais tradicionais. “Um mérito da internet foi ter incentivado o ato da escrita, especialmente entre os mais jovens. Mas a linguagem ainda é tão estereotipada que livros e jornais despontam como os salvadores da gramática.”

Para Zuenir, a vitória, ao final, será da necessidade humana de leitura – esta vai sempre permanecer, independente da mudança de suporte. “Seja em papiros ou em e-books, o homem terá sempre uma vontade interminável de ler, de se comunicar, algo que, com o tempo, se transformou em uma necessidade biológica.”

Tudo está aí para nos servir

Também é este o enredo da crônica desta semana da escritora santa-cruzense Lya Luft – 72 anos completados na última quarta-feira – na revista Veja. “Este é um dos temas sobre os quais jornalistas e leitores habituais mais nos interrogam. O livro vai acabar, as editoras vão fechar, é a morte dos autores?” Para ela, os catastrofistas de plantão são mal-informados e lembra que com a chegada do rádio, depois da televisão e, por fim, da internet, nada mudou radicalmente. Cada novo invento acrescentou, não tirou.

Lya escreve que, naturalmente, dirão que ela é uma viciada no livro de papel: “Direi que, sim, o cheiro de livro, de biblioteca, de livraria é mágico para quem como eu foi criada nesse meio, ligada a esse instrumento de prazer, informação e crescimento pessoal, de integração do mundo, sem fronteiras de espaço e tempo”. E acrescenta: “Tudo está aí para nos servir, se não formos incompetentes demais”.

Ubiratan Brasil/AE

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